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Domingo, Setembro 13, 2009

Gentileza

Ele havia ganhado o dia.
Ele havia perdido a hora.

Aquela garota por quem fora apaixonado durante toda a juventude e que a vida havia levado não sabia para onde o encontrara ao acaso na padaria do centro, onde ele sempre tomava seu café.
O ônibus em que deveria estar naquele momento, o perdera havia meia hora. Meteu-se na roupa tão rápido como pôde, ajeitou rápido o cabelo e saiu correndo de casa, sem sequer tomar café.

Carregava seu cappuccino por entre as mesas, desviando-se das pessoas que lotavam a loja. Esbarrou em uma delas, deixando derramar um pouco da bebida no pires. Virou-se para se desculpar e seus olhos cruzaram-se. Era ela.
Levava seu arquivo, abarrotado de processos, evitando as pessoas que toda manhã apinhavam o centro da cidade. Trombou com uma delas e, por sorte, seu arquivo não caíra. Praguejou algumas palavras, sem ao menos olhar para ver quem era.

Com calma, terminou seu cappuccino, olhando-a nos olhos e sendo feliz por tê-la encontrado. Ao final, um milagre: ela lhe entregara um pequeno papel, com seu telefone.
Apressado, acelerava o passo por entre aquele povo, sem se preocupar em olhar as pessoas no rosto. Sua maior interação com eles era quando recolhia o lixo que lhe davam os panfleteiros que se colocavam no seu caminho. Tomava-lhes os panfletos também sem se dignar a olhá-los, acionado mecanicamente pelo som de papéis batendo em mãos. Pegava-os, amassava-os e os atirava ao chão.

Sua alegria era tamanha, que não podia conter o sorriso. Aquele pedacinho de papel era seu grande tesouro, e carregava-o com cuidado próprio a objetos dessa estirpe. Comemorou, ao sair da padaria, batendo o papel contra a mão e parando para fitá-lo.
E não conseguiu ver quem lhe tomara da mão, como um raio, nem pra onde havia ido.
  ATF<

Domingo, Agosto 23, 2009

Ante-nada

Era uma Maria, ou uma Joana, ou ainda uma Rita...

Não importa quem fosse. O fato é que sempre fora ela muito bem informada e, como sempre dizia, "antenada nas novidades". Considerava com propriedade sobre diversos assuntos da comunidade e, certamente, não era a fala um pudor seu.

Alegrou-se com o fim do namoro da Clarinha; pois o traste do Roberto não valia o ar que respirava. Como flertava com todas as meninas do bairro quando a namorada não estava por perto! Diferente do Paulo. Esse sim! Como ela invejava a Aninha, uma menina mosca-morta que havia, não se sabe como, fisgado o melhor partido das redondezas.

Chocou-se com a ida à bancarrota da Dona Maricotinha. A pobre, veja só que lástima, perdera as suas economias de toda uma vida no bingo. Isso, enquanto seu filho a abandonava para se aventurar numa outra cidade - aquele egoísta sem alma - e seu marido, o "seu" Alcebíades, sequer lembrava de seu próprio nome e passava as tardes vagando pela vizinhança a gritar desaforos aos ventos.

Se alegrou com o nascimento do Juninho... E se decepcionou quando, pela terceira vez, repetiu o primeiro ano. Bem verdade que tinha a quem puxar: o "seu" Antenor mal havia concluído o quinto ano e dona Emengarda nem á escola havia ido. Como já dizia o ditado, filho de peixe...

Por toda sua vida, sempre soube tudo. No seu último suspiro, quando dizem passar a vida pelos nossos olhos, no entanto, não via nada diante de si. Nem sabia se
era uma Maria, ou uma Joana, ou ainda uma Rita...
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Sábado, Agosto 01, 2009

Gente da terra

Morreu João Honório. Mais uma vítima da disputa infrutífera de anos por um pedaço de terra. A família, desolada, ao mesmo tempo em que chorava a morte do patriarca, alimentava o ódio aos Garcia. E a vingança era arquitetada.

Tal qual fora feito a um finado João, era agora planejado o último suspiro de um José. Um tiro certeiro enquanto colhesse, para avisar que o que se planta colhe-se. E lavar a terra gloriosa com o sangue desafeto.

Aquela terra boa, que retibuía com maravilhosos frutos cada semente que se lhe confiava. Terra rica, que bem poderia alimentar tantos quantos nela se fixassem. Terra boa, terra rica. Ora Ribeiro, ora Garcia.

Morreu José Vicente. E, mais uma vez, havia os lamentos, havia os planos. mais uma vez não viam os homens que a terra que tanto disputavam não era sua glória, nem riqueza.

Era seu túmulo.
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Domingo, Julho 05, 2009

Calo

Carmesim. Da mesma mina donde outrotra nasceram belíssimas palavras, que deram forma a idéias ainda mais iluminadas, brotara aquele líquido que pintou sua túnica branca. A tinta da pena que feriu com beleza ouvidos doentes fora derramada pelas mãos do tirano. Uma punição exemplar. A quem antes fora proibido falar, agora, era cortada a língua. E exibiam com orgulho em praça pública o jovem que fora a expressão de uma geração.
Sua mente borbulhava de idéias e seu coração de resfriava em sua desolação. Por onde sairiam as palavras que nasciam em sua cabeça, se já não mais poderia pronunciá-las? Fora calado; da forma mais covarde! E feito exemplo a todos aqueles que ousassem expressar suas idéias; ele mesmo já não podia mais fazê-lo.
Uma tristeza indizível invadiu seu peito; e sua alma foi tão preenchida por esse sentimento, que transbordou em copiosas lágrimas. O inimigo vencera. E fizera dele a expressão de sua vitória sobre a palavra. O feito inexpressivo, aquele que fora calado, ainda embebido em seu próprio sangue e, ainda, maculado pelas lágrimas da derrota, à vista de todos.
E todos olhavam.
E percebeu que fora feito mudo, mas, ainda assim, todos testemunhavam sua tristeza e dirigiam-lhe as atenções. E que sua presença em si era a expressão da injustiça e intolerância de uma tirania que oprimia a todos. Tiraram-lhe a palavra, proibiram que se expressasse. Mas não se tira a expressão de quem tem uma alma! Não há violência que cale um coração resoluto, mesmo que lhe tirem a vida!
E levantou-se. E ergueu a cabeça. E todos os que passavam viam, agora, que ele chorava. De alegria.
  ATF<

Sexta-feira, Julho 13, 2007

British tea

Preparava seu chá naquela manhã. Levou consigo o frasco com o jasmim, cuidadosamente guardado em seu quarto junto com outras ervas e sachês. Tudo meticulosamente organizado, como manda a cartilha virginiana. Ela gostava das coisas sob seu controle. Trazia à mão, também, sua caneca roxa, que seria estreiada dentro em pouco. Tudo isso, acompanhada de perto por sua gata, companheira inseparável.

Encontrou a chaleira com água e o açúcar fora de lugar. "Reles criaturas desorganizadas e sem disciplina!" Recusava-se a requentar água velha, mas resolveu abstrair a falha do açúcar. Era misericordiosa.

Jogou a água velha fora, separou a chaleira num canto. Lavou a caneca roxa e mediu nela a quantidade de água para o chá. Reuniu chaleira e caneca, derramando a água fresca na primeira. Descansou a caneca próximo ao frasco com o jasmim, já posicionado corretamento ao lado do açúcar. Acendeu o fogo. Não podia estar muito alto, nem baixo demais. Colocou a chaleira.

Sentia-se o maestro de uma orquestra imensa. Um caos em potencial, transformado em arte pelo toque de sua mão. Tinha o controle total do ambiente, de si e da gata, que assistia a tudo de uma forma tão serena e disciplinada quanto a dona. Ela adorava ter o controle de tudo! Já sabia cada passo que deveria dar e exatamente como o chá sairia ao final.

O toque do telefone quebra o silêncio cerimonial do feitio do chá. Uma voz conhecida e terna dizia-lhe oi. Ela teve o ímpeto de sorrir, largar o chá e contar sobre o seu dia; mas, em meio a seu processo, disciplinada, apenas disse oi. Ele, a voz, o caos em pessoa, continuava.

Continuavam se falando. Ele, aleatoriamente e com pouquíssimo auto-controle. Ela, metódica e senhora de si, preocupada em não deixar a água ferver e retirá-la assim que atingisse os 90 graus. Se falavam como se se conhecessem desde sempre. Ele, atrapalhado e aleatório; ela, coordenando tudo. Desde a cozinha até seus sentimentos. Água e pedra.
Com o tempo, à medida que a conversa evoluía, as coisas iam mudando. Ele já falava baixo e não batia em tudo. Ela já sorria e esquecia de algumas regras. Colocou o açúcar com a colher do jasmim e este, direto do frasco. Tudo na caneca errada. Transportou tudo para a certa, de um modo que nunca faria. Aliás, nunca faria tal transporte. Ou beberia na caneca errada, ou jogaria tudo fora e recomeçaria do ponto da falha. Até a gata estava inquieta com o som da água fervendo. Ela, primeiro, aumentou o fogo. depois, percebendo o erro, o desligou. Tudo sem parar com a conversa.

Resolveram desligar e ela voltou ao chá. Voltou, percebendo o "caos" da cozinha. A gata inquieta, o chá sem medidas, duas canecas sujas, processo roto e água fervida. Aquele mundo era-lhe muito estranho. Mas estava, ao mesmo tempo, estranhamente feliz apesar daquela estranheza toda. Ou seria justamente por sua causa? Não sabia ao certo... Sabia é que tinha perdido o controle e não sabia mais o que seria daquele chá.

Aquilo a assustava, mas resolveu tentar. Derramou a água na caneca, tentando improvisar uma metodologia a partir do que a original fora um dia. Ao fim, levou a caneca à boca.

Nunca na sua vida bebera um chá tão bom!
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Sábado, Maio 26, 2007

S.P.P.

Lugar estranho é hospital.
É lá onde sentimentos tão distintos convivem lado a lado tão harmoniosamente; em meio ao caos do lugar, naturalmente. Hospital é um paradoxo. No mínimo, irônico é ver um grupo em branco, sorrindo próximo ao quarto da velha senhora que acabara de morrer. No seu prontuário, três letras avisavam de seu estado. SPP. Se Parar, Parou.

Já se arrastava havia alguns dias, num quadro clínico complicado, delicado. Mobilizava, vez por outra, a equipe de enfermeiros e fisioterapeutas, já tirara o sono do residente e do plantonista em algumas ocasiões. O que ela tinha não vem ao caso. Qualquer ite ou ose, devidamente descrita no prontuário, com uma lista de idos, inas e oxes para fazê-la melhorar. No entanto, SPP.

No início, chegou-se a tentar prever o dia em que aconteceriam os P's das sigla. Naquele dia, porém, já pela manhã a discussão girava em torno da grande questão ética hospitalar: "antes ou depois da visita?".

Mais uma vez, a velhinha mobilizava a equipe médica. Desta vez, não pela necessidade de um qualquer-oxe de alguma-coisa-ose para tratar sua ite, mas a mais importante questão médica: "antes ou depois da visita?". Até o Diretor apostou dez pratas que seria depois.

Agora, uns voltavam ao trabalho resignados; outros, sorriam próximo ao quarto da pobre. Não que a morte fosse bem quista, ou que a senhora não o fosse. Mas ela foi antes da visita.
  ATF<

Sábado, Maio 05, 2007

Panic House

Revisitava suas lembranças do tempo em que conseguira a casa. Belos tempos. Tudo novo, cada canto uma sensação diferente. Hoje em dia, porém, as coisas já não andavam como antes. O lugar lhe parecia pequeno, como que encolhendo a cada momento, apesar de ser exatamente o mesmo lugar, igual, do mesmo tamanho. Talvez ela houvesse mudado. Talvez fosse isso o que mais a assustava. Mais do que a casa parecendo diminuir do tamanho com ela dentro. Sentia a necessidade de sair da casa. Mudar, porém, é incerto; nada é seguro quando se muda. Ela não gosta de apostas.

O auge do disparate, no entanto, chegara. Decidiu que era hora de tentar. Vencer seus medos e arriscar a se sentir bem, mesmo apesar dos riscos que aparecessem. Largou sua xícara de chá na mesinha da sala e foi em direção ao quarto. Uma nova aventura requer um bom trajar.

No silêncio do corredor, lembrou-se que lá fora fazia barulho. Carros, pessoas... Pessoas! Odiava desconhecidos que puxavam conversa. Pior os que a tocavam. E se fossem ladrões? Voltou à sala e trancou bem a porta.

De volta à escolha da roupa. Estaria calor lá fora? O que usar num verão escaldante de tempos de aquecimento global? Verão escaldante. Sol. Câncer de pele. Ainda na sala, fechou todas as janelas e repetiu o ritual em cada cômodo.

Pronto. Não teria problemas com pessoas espaçosas, barulho, sol... Mantivera seu mundo como antes. Sem mudanças. Seguro. Comprimia-a cada vez mais o peito, mas já estava acostumada. A compressão era parte do "antes" seguro.

Por fim, respirou aliviada. Respirar! Toxinas, gases poluentes enchendo o ar que lhe adentra os pulmões! Meticulosamente, tapou cara entradinha de ar da casa. Cansada, porém segura, sentou-se no sofá, de volta ao chá.

Minutos depois, morreu sufocada.