Revisitava suas lembranças do tempo em que conseguira a casa. Belos tempos. Tudo novo, cada canto uma sensação diferente. Hoje em dia, porém, as coisas já não andavam como antes. O lugar lhe parecia pequeno, como que encolhendo a cada momento, apesar de ser exatamente o mesmo lugar, igual, do mesmo tamanho. Talvez ela houvesse mudado. Talvez fosse isso o que mais a assustava. Mais do que a casa parecendo diminuir do tamanho com ela dentro.

Sentia a necessidade de sair da casa. Mudar, porém, é incerto; nada é seguro quando se muda. Ela não gosta de apostas.
O auge do disparate, no entanto, chegara. Decidiu que era hora de tentar. Vencer seus medos e arriscar a se sentir bem, mesmo apesar dos riscos que aparecessem. Largou sua xícara de chá na mesinha da sala e foi em direção ao quarto. Uma nova aventura requer um bom trajar.
No silêncio do corredor, lembrou-se que lá fora fazia barulho. Carros, pessoas... Pessoas! Odiava desconhecidos que puxavam conversa. Pior os que a tocavam. E se fossem ladrões? Voltou à sala e trancou bem a porta.
De volta à escolha da roupa. Estaria calor lá fora? O que usar num verão escaldante de tempos de aquecimento global? Verão escaldante. Sol. Câncer de pele. Ainda na sala, fechou todas as janelas e repetiu o ritual em cada cômodo.
Pronto. Não teria problemas com pessoas espaçosas, barulho, sol... Mantivera seu mundo como antes. Sem mudanças. Seguro. Comprimia-a cada vez mais o peito, mas já estava acostumada. A compressão era parte do "antes" seguro.
Por fim, respirou aliviada. Respirar! Toxinas, gases poluentes enchendo o ar que lhe adentra os pulmões! Meticulosamente, tapou cara entradinha de ar da casa. Cansada, porém segura, sentou-se no sofá, de volta ao chá.
Minutos depois, morreu sufocada.